{"id":761,"date":"2020-08-10T12:30:02","date_gmt":"2020-08-10T12:30:02","guid":{"rendered":"https:\/\/criarsustentavel.com.br\/novo\/?p=761"},"modified":"2020-08-10T12:18:27","modified_gmt":"2020-08-10T12:18:27","slug":"marca-de-cosmeticos-sustentaveis-no-alemao-triplica-vendas-na-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/criarsustentavel.com.br\/novo\/2020\/08\/10\/marca-de-cosmeticos-sustentaveis-no-alemao-triplica-vendas-na-pandemia\/","title":{"rendered":"Marca de cosm\u00e9ticos sustent\u00e1veis no Alem\u00e3o triplica vendas na pandemia."},"content":{"rendered":"<p>\u00d3leo de cozinha que vira sab\u00e3o. Ervas e plantas medicinais para fazer garrafadas que prometem curar quase todo e qualquer tipo de enfermidade. A pr\u00e1tica e o conhecimento de duas av\u00f3s foi o que bastou para que Claudio Marques, morador do Complexo do Alem\u00e3o, no Rio, largasse a vida de &#8220;bico em restaurante&#8221;, trabalhando dia sim, dia n\u00e3o como gar\u00e7om, para se tornar dono do pr\u00f3prio neg\u00f3cio aos 25 anos.<\/p>\n<p>Cursando Hist\u00f3ria da Arte na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Claudio conheceu Felipe Garcia, estudante de Biologia, com quem criou a Kurand\u00e9. Juntos, os s\u00f3cios produzem f\u00f3rmulas sustent\u00e1veis para sabonetes, cremes e outros cosm\u00e9ticos a partir do conhecimento fitoter\u00e1pico e do resgate de pr\u00e1ticas de autocuidado ancestrais, em sua maioria de cultura africana e ind\u00edgena.<\/p>\n<p>&#8220;A gente sempre conversava sobre nossas viv\u00eancias e inf\u00e2ncia. Um dia, Felipe me contou que sua bisav\u00f3 era curandeira e parteira, por isso sempre teve contato com plantas e ch\u00e1s. Enquanto ele falava, me lembrei da minha av\u00f3. Ela tamb\u00e9m fazia xaropes caseiros e vivia na cozinha separando \u00f3leo de cozinha para fazer sab\u00e3o. Foi nesse momento que pensamos em unir esses dois saberes&#8221;, relembra Claudio.<\/p>\n<p>Felipe, que j\u00e1 pesquisava sobre fitoterapia &#8211; estudo de plantas medicinais &#8211; na faculdade, passou a ser respons\u00e1vel pela parte t\u00e9cnica e pela elabora\u00e7\u00e3o de processos qu\u00edmicos, enquanto Claudio ficou com a escolha de insumos. &#8220;Recorri tanto \u00e0 minha av\u00f3, quanto ao meu Ax\u00e9. Sou iniciado no candombl\u00e9 e fui perguntar para os mais velhos, minha av\u00f3 e m\u00e3e de santo, quais eram as ervas boas para o corpo, cabe\u00e7a e mente. E a\u00ed, a partir da experi\u00eancia acad\u00eamica do Felipe, criamos a primeira linha de produtos: tr\u00eas sabonetes e um creme corporal \u00e0 base de ervas e plantas medicinais&#8221;.<\/p>\n<p>O empreendimento, que come\u00e7ou de forma despretensiosa em uma cozinha, com apenas amigos e vizinhos clientes, passou a marcar presen\u00e7a em feiras e eventos e viu crescer o n\u00famero de encomendas. O que era para ser um dinheiro para complementar o bico de gar\u00e7om virou a principal fonte de renda dos rapazes. Hoje, a Kurand\u00e9 conta com um espa\u00e7o para retirada e entrega de fornecedores no centro do Rio.<\/p>\n<p>&#8220;No come\u00e7o, a gente teve muito problema com o servi\u00e7o de correios, que n\u00e3o atende a nossa regi\u00e3o, e tamb\u00e9m com uma boa parte dos fornecedores. Ent\u00e3o, tivemos que alugar um box e criar um CEP fora da favela para poder continuar e dar conta da demanda&#8221;, explica Claudio.<\/p>\n<h2>Laranja, capim lim\u00e3o e&#8230; nada de sabonete quadrado!<\/h2>\n<p>Desde que foi criada, em 2019, a Kurand\u00e9 se preocupa em democratizar o uso de produtos sustent\u00e1veis. Al\u00e9m de n\u00e3o utilizar pl\u00e1stico em suas embalagens, a marca age diretamente na cadeia de produ\u00e7\u00e3o e de consumo, priorizando plantas, ervas e outros insumos da flora brasileira e latinoamericana. O resultado \u00e9 a comercializa\u00e7\u00e3o de produtos artesanais e a pre\u00e7os mais acess\u00edveis. Sabonetes, cremes e xampus v\u00e3o de R$ 12 a R$ 42,90. Kits completos, com uma gama vari\u00e1vel de produtos, saem a partir de R$ 155.<\/p>\n<p>&#8220;O que acontece \u00e9 que, \u00e0s vezes, dentro da sociedade, o debate da sustentabilidade \u00e9 visto quase como um status social. Existe um mercado de produtos com pre\u00e7os l\u00e1 em cima. E por qu\u00ea? Algumas marcas de cosm\u00e9ticos naturais, por exemplo, usam \u00f3leo essencial de uma erva que voc\u00ea s\u00f3 encontra l\u00e1 fora, numa regi\u00e3o superfria, distante. Isso aumenta o custo de produ\u00e7\u00e3o e o pre\u00e7o final. Ent\u00e3o, o que a gente faz \u00e9 focar em uma sustentabilidade que seja real: por que vou usar \u00f3leo essencial de uma erva supercara se posso ter o mesmo efeito com uma erva brasileira e ainda resgatar o conhecimento de quem j\u00e1 fez esse uso?&#8221;, questiona Claudio.<\/p>\n<p>A Kurand\u00e9 usa e abusa de laranja, capim lim\u00e3o, cravo, \u00f3leo de coco de baba\u00e7u, manteiga de murumuru e manteiga de cupua\u00e7u. &#8220;Temos uma flora riqu\u00edssima. Valorizar o que \u00e9 daqui \u00e9 uma forma de valorizar o ensinamento de nossos ancestrais tamb\u00e9m.&#8221;<\/p>\n<p>Com o boom das m\u00e1scaras faciais, o empreendedor explica o sucesso da &#8220;Despertar de H\u00f3rus&#8221;, um dos produtos mais vendidas da marca. Ela \u00e9 feita com argila branca, urucum, linha\u00e7a marrom, camomila entre outros insumos.<\/p>\n<p>&#8220;Muita gente atribui essa quest\u00e3o do &#8216;skincare&#8217; a algo muito do ocidente. Com a Despertar de H\u00f3rus, por exemplo, a gente buscou trazer essa reflex\u00e3o de que se trata de uma pr\u00e1tica muito antiga, feita desde \u00c1frica, por diversas tribos. Tribos da Nam\u00edbia vestiam o rosto todo e o cabelo com uma argila superpotente, rica em ferro, que tornava a pele mais saud\u00e1vel e resistente ao sol, entende? Esse resgate \u00e9 importante porque mostra o por qu\u00ea de nossas escolhas e ingredientes&#8221;, explica.<\/p>\n<h2>Sustentabilidade dentro da favela<\/h2>\n<p>A mem\u00f3ria afetiva da av\u00f3 preparando sab\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 inspirou o lado sustent\u00e1vel da marca, com ajudou a definir o &#8220;estilo&#8221; dos sabonetes. &#8220;Uma coisa que ficou na minha cabe\u00e7a \u00e9 que sab\u00e3o quadrado \u00e9 para lavar roupa. Minha av\u00f3 fazia justamente assim para n\u00e3o confundir com o redondo, de tomar banho. Mesmo assim eu confundia algumas vezes. Quando comecei a Kurand\u00e9, pensei: tudo, menos sab\u00e3o quadrado!&#8221;, brinca.<\/p>\n<p>Para Claudio, assim como a reutiliza\u00e7\u00e3o do \u00f3leo de cozinha, outras pr\u00e1ticas de sustentabilidade j\u00e1 acontecem h\u00e1 muito tempo dentro das favelas, mas n\u00e3o s\u00e3o validadas pelo mercado como tal. Quando uma m\u00e3e faz a customiza\u00e7\u00e3o de uma cal\u00e7a do filho mais velho para dar ao mais novo. Ou quando garrafas pet s\u00e3o utilizadas como vaso, o uso de potes de manteiga, copos de requeij\u00e3o&#8230; &#8220;A reutiliza\u00e7\u00e3o, que hoje chamam de movimento upcycling, ou slow fashion&#8230; Tudo isso j\u00e1 acontece aqui, s\u00f3 n\u00e3o tinha esses nomes &#8220;.<\/p>\n<p>Com a Kurand\u00e9, os empreendedores querem dar visibilidade ao debate sobre sustentabilidade se tornando protagonistas da a\u00e7\u00e3o. &#8220;O que falta ainda, na comunidade, \u00e9 entender essa sustentabilidade como uma escolha e oportunidade, n\u00e3o apenas como necessidade: &#8216;N\u00e3o tenho dinheiro para comprar uma roupa nova, vou dar um jeito nessa daqui&#8217;. Isso \u00e9 feito por necessidade. Mas existe o outro lado, de repensar o consumo, e isso se mostra no nosso direito de escolha&#8221;, afirma.<\/p>\n<h2>Do Complexo do Alem\u00e3o para o mundo<\/h2>\n<p>Mesmo com a pandemia de Covid-19, a Kurand\u00e9 triplicou o n\u00famero de vendas. O sucesso, no entanto, n\u00e3o veio de maneira f\u00e1cil. &#8220;No primeiro m\u00eas, com eventos e lojas fechados, nossa principal fonte de renda ficou amea\u00e7ada. Est\u00e1vamos com a agenda lotada, com diversas feiras tanto no Rio quanto em S\u00e3o Paulo. A \u00fanica sa\u00edda foi investir na digitaliza\u00e7\u00e3o do neg\u00f3cio. Repensamos toda a divulga\u00e7\u00e3o, ampliamos nossa plataforma virtual de vendas e impulsionamos nossas redes sociais&#8221;.<\/p>\n<p>O resultado ultrapassou as expectativas. Em julho, a Kurand\u00e9 vendeu muito mais pela internet do que em qualquer m\u00eas com participa\u00e7\u00e3o em eventos. Agora, Claudio e Felipe se preparam para abrir a primeira loja f\u00edsica no Complexo do Alem\u00e3o. O espa\u00e7o vai se chamar Casa Kurand\u00e9 e, al\u00e9m da comercializa\u00e7\u00e3o de produtos, oferecer\u00e1 pr\u00e1ticas de autocuidado com terapias hol\u00edsticas, massoterapia, acupuntura e yoga.<\/p>\n<p>&#8220;Gostamos muito de falar que a nossa aud\u00e1cia enquanto homens favelados \u00e9 de fazer com que a &#8216;gambiarra&#8217; se torne um debate frequente na sociedade. Existe uma vis\u00e3o do senso comum de que na favela tudo \u00e9 improvisado, nada \u00e9 bem feito, planejado. E estamos aqui para quebrar esse estere\u00f3tipo. Quando perguntam: &#8216;Mas voc\u00eas fazem tudo isso dentro da favela?&#8217;. Sim, por qu\u00ea n\u00e3o? \u00c9 claro que n\u00e3o podemos romantizar e sabemos de todos os problemas estruturais por parte do Estado, que s\u00f3 entra aqui com o bra\u00e7o armado, mas a gente acredita e v\u00ea muita for\u00e7a na comunidade, como um lugar que gera pot\u00eancia e muitas solu\u00e7\u00f5es&#8221;.<\/p>\n<p>ECOA UOL.\u00a0<b>Marca de cosm\u00e9ticos sustent\u00e1veis no Alem\u00e3o triplica vendas na pandemia<\/b>. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.uol.com.br\/ecoa\/ultimas-noticias\/2020\/08\/10\/marca-de-cosmeticos-sustentaveis-no-alemao-triplica-vendas-na-pandemia.htm?utm_source=twitter&amp;utm_medium=social-media&amp;utm_content=geral&amp;utm_campaign=ecoa. Acesso em: 10 ago. 2020.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00d3leo de cozinha que vira sab\u00e3o. Ervas e plantas medicinais para fazer garrafadas que prometem curar quase todo e qualquer tipo de enfermidade. 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