{"id":506,"date":"2020-06-10T12:30:59","date_gmt":"2020-06-10T12:30:59","guid":{"rendered":"https:\/\/criarsustentavel.com.br\/?p=501"},"modified":"2020-06-16T18:13:23","modified_gmt":"2020-06-16T18:13:23","slug":"eloi-laurent-a-decada-que-se-abre-em-2020-e-realmente-a-do-desafio-ecologico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/criarsustentavel.com.br\/novo\/2020\/06\/10\/eloi-laurent-a-decada-que-se-abre-em-2020-e-realmente-a-do-desafio-ecologico\/","title":{"rendered":"\u00c9loi Laurent: &#8220;A d\u00e9cada que se abre em 2020 \u00e9 realmente a do desafio ecol\u00f3gico&#8221;"},"content":{"rendered":"\r\n<p>O economista franc\u00eas acaba de lan\u00e7ar em Portugal o livro \u2018De Olhos Postos no Amanh\u00e3\u2019, onde defende o fim da obsess\u00e3o pelo crescimento econ\u00f3mico em troca do bem-estar e sa\u00fade das popula\u00e7\u00f5es. O tamb\u00e9m professor na Universidade de Stanford defende o abandono da utiliza\u00e7\u00e3o de indicadores como o crescimento do PIB e, em vez deles, que se deve adotar outros, como o bem-estar, a resili\u00eancia e a sustentabilidade.<\/p>\r\n<p>A Casa das Letras acaba de lan\u00e7ar o livro \u2018De Olhos Postos no Amanh\u00e3\u2019, do economista franc\u00eas \u00c9loi Laurent, professor na Universidade de Stanford, que considera que a obsess\u00e3o pelo crescimento econ\u00f3mico nos impede de compreender e mudar o mundo. A avidez de crescimento econ\u00f3mico ignora o bem-estar humano, \u00e9 surda \u00e0s desigualdades sociais e muda \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas. Mas s\u00f3 com essas altera\u00e7\u00f5es se dar\u00e1 mais import\u00e2ncia \u00e0 justi\u00e7a social e \u00e0 qualidade de vida dos cidad\u00e3os.<\/p>\r\n<p>Laurent alerta ainda que o \u2018milagre portugu\u00eas\u2019 \u00e9, em termos de crescimento, uma miragem e\u00a0defende que os pr\u00f3ximos Or\u00e7amentos de Estado devem ter em conta o bem\u2011estar humano e n\u00e3o s\u00f3 o crescimento econ\u00f3mico. O economista vai mais longe e considera que temos de abandonar a utiliza\u00e7\u00e3o de indicadores como o crescimento do PIB e, em vez deles, adotar outros como o bem-estar, a resili\u00eancia e a sustentabilidade. Pois, ao faz\u00ea-lo, os pa\u00edses ser\u00e3o capazes de mudar o seu foco num crescimento infinito e irrealista, passando a dar maior import\u00e2ncia \u00e0 justi\u00e7a social e \u00e0 qualidade de vida dos seus cidad\u00e3os.<\/p>\r\n<p><strong>Defende no seu novo livro que o crescimento econ\u00f3mico \u00e9 uma ilus\u00e3o perigosa. Porque diz isso?<\/strong><\/p>\r\n<p>O crescimento precisa de ser abandonado simplesmente porque n\u00e3o nos ajuda a entender o mundo em que vivemos. Que melhor exemplo da ilus\u00e3o de crescimento do que a atual crise da Covid-19? Pens\u00e1vamos que \u00e9ramos imunes \u00e0 nossa destrui\u00e7\u00e3o da biosfera e ao nosso dom\u00ednio sobre as esp\u00e9cies que a habitam e das quais somos de facto parceiras. Aqui estamos, em apenas alguns dias, isolados, imobilizados e mascarados.<\/p>\r\n<p>O caso dos Estados Unidos, o pa\u00eds mais rico da hist\u00f3ria da humanidade, em que o presidente se vangloriava de ter o maior crescimento em 2019 \u00e9 emblem\u00e1tico: a sua economia transformou-se num caos em poucas semanas com n\u00edveis de desemprego dos anos 30, fome em crian\u00e7as, in\u00fameras filas de pessoas a pedir comida de gra\u00e7a. A riqueza estava apenas a esconder a pobreza.<\/p>\r\n<p><strong>Acha que os pa\u00edses t\u00eam no\u00e7\u00e3o disso, mas que simplesmente \u00e9 imposs\u00edvel pararem a engrenagem do modelo de sociedade que temos?<\/strong><\/p>\r\n<p>Na verdade, os sinais de mudan\u00e7a est\u00e3o por toda a parte e apareceram por volta de 2007-2009 com a confer\u00eancia europeia \u201cAl\u00e9m do PIB\u201d e o relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Stiglitz. Em 2015, as Na\u00e7\u00f5es Unidas estabeleceram 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel e garantiram que o PIB n\u00e3o dominaria a agenda. Em 2019, quatro pa\u00edses decidiram trocar o PIB por indicadores de bem-estar como a sua b\u00fassola social: Finl\u00e2ndia, Nova Zel\u00e2ndia, Esc\u00f3cia e Isl\u00e2ndia.<\/p>\r\n<p>A Nova Zel\u00e2ndia, em particular, um dos pa\u00edses que melhor resistiu \u00e0 crise social e de sa\u00fade, adotou, h\u00e1 um ano, um \u201cor\u00e7amento de bem-estar\u201d, priorizando a sa\u00fade, tanto f\u00edsica quanto mental (come\u00e7ando com a das crian\u00e7as) sobre o crescimento. Foi vision\u00e1rio.<\/p>\r\n<p>A mudan\u00e7a tamb\u00e9m est\u00e1 a acontecer a n\u00edvel local. O caso dos Estados Unidos \u00e9 interessante a esse respeito. Los Angeles, Nova Iorque, mas tamb\u00e9m Baltimore, San Jos\u00e9 e Santa Monica \u2013 com o seu \u201cEscrit\u00f3rio de Bem-Estar C\u00edvico\u201d \u2013 desenvolveram recentemente iniciativas para medir e melhorar o bem-estar, escolhendo um caminho radicalmente diferente do Governo Federal.<\/p>\r\n<p><strong>Foram as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e todo o impacto nefasto que o Homem fez ao planeta que ditou o fim do modelo do crescimento continuado?<\/strong><\/p>\r\n<p>N\u00e3o podemos mais desviar o olhar: a d\u00e9cada que se abre em 2020 \u00e9 realmente a do desafio ecol\u00f3gico. Diante das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, da destrui\u00e7\u00e3o da biodiversidade e da degrada\u00e7\u00e3o dos ecossistemas vis\u00edveis e tang\u00edveis em qualquer lugar do planeta, as comunidades humanas devem iniciar uma profunda transforma\u00e7\u00e3o de atitudes e comportamentos dos seus membros para impedir que o s\u00e9culo XXI seja de autodestrui\u00e7\u00e3o do bem-estar dos seres humanos. O crescimento n\u00e3o \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o, \u00e9 um obst\u00e1culo no caminho para essa transi\u00e7\u00e3o.<\/p>\r\n<p>A principal li\u00e7\u00e3o da pandemia de Covid-19 nesta fase, como a dos inc\u00eandios gigantes que assolaram a Austr\u00e1lia no in\u00edcio de 2020 e que apenas a chuva acabou por parar, \u00e9 clara para quem quer ver: destruir a natureza est\u00e1 al\u00e9m do nosso alcance. Por outras palavras, viver em harmonia com a biosfera \u00e9 principalmente do nosso interesse. As vozes que est\u00e3o a surgir atualmente a exigir um retorno ao \u2018realismo econ\u00f3mico\u2019 e ao crescimento emanam de sonhadores que n\u00e3o t\u00eam consci\u00eancia do mundo em que vivem ou que erroneamente pensam que ser\u00e3o capazes de lidar com a destrui\u00e7\u00e3o da biosfera. Essas vozes devem acordar com urg\u00eancia e, se n\u00e3o puderem, devem deixar a lideran\u00e7a para pessoas que est\u00e3o cientes disso.<\/p>\r\n<p><strong>Mas est\u00e1 assim a perspetivar o fim do capitalismo?<\/strong><\/p>\r\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre crescimento e capitalismo \u00e9 realmente complexa. Primeiro, pode-se sair do crescimento sem sair do capitalismo, como mostra o caso do Jap\u00e3o. Entre 1960 e 1990, o crescimento do PIB foi de cerca de 185% (quase 6% ao ano), enquanto que desde 1990 foi de cerca de 27%, quase sete vezes menor, e, no entanto, o capitalismo japon\u00eas continua a florescer.<\/p>\r\n<p>Em segundo lugar, pode-se tamb\u00e9m, na dire\u00e7\u00e3o oposta, deixar o capitalismo ou recusar-se a entrar nele, sem deixar o crescimento e os seus efeitos destrutivos, especialmente a n\u00edvel ecol\u00f3gico. \u00c9 o caso da China e, antes dela, da URSS. Este \u00e9 um argumento criticado por alguns leitores do meu livro que acreditam que a China se tornou num pa\u00eds capitalista. Ainda n\u00e3o penso assim: o capitalismo sup\u00f5e pelo menos o liberalismo econ\u00f3mico, a economia de mercado e o poder dos acionistas. Na China, tudo isso est\u00e1 sujeito \u00e0 boa vontade do poder, ele pr\u00f3prio controlado por um \u00fanico partido. A economia chinesa nunca deixou de ser administrada. \u00c9 ainda mais assim porque h\u00e1: controlo direto da moeda, bancos, mercados, empresas, etc. Quanto \u00e0 URSS, \u00e9 preciso lembrar que tamb\u00e9m estava obcecada pelo crescimento. Devemos concluir que era capitalista? \u00c9 dif\u00edcil argumentar para dizer o m\u00ednimo.<\/p>\r\n<p>Finalmente, pode-se permanecer capitalista e gradualmente abandonar o crescimento, como acredito que os pa\u00edses n\u00f3rdicos, como a Finl\u00e2ndia, que se governam impl\u00edcita ou explicitamente com indicadores de bem-estar e sustentabilidade.<\/p>\r\n<p><strong>Diz, por isso, que o bem\u2011estar humano se deve tornar na b\u00fassola das pol\u00edticas p\u00fablicas. O que os pa\u00edses t\u00eam de fazer?<\/strong><\/p>\r\n<p>A chave \u00e9 como os or\u00e7amentos s\u00e3o definidos. As institui\u00e7\u00f5es e organiza\u00e7\u00f5es \u2013 governos, cidades, empresas \u2013 baseiam as suas decis\u00f5es or\u00e7ament\u00e1rias em indicadores, hoje voltados obsessivamente para o crescimento do PIB. A minha proposta \u00e9 simples: basear a dire\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas e privadas em diferentes indicadores. Isso requer a\u00e7\u00e3o aos n\u00edveis europeu e nacional. As estat\u00edsticas dispon\u00edveis sobre o estado de cada pa\u00eds precisam de ser aprimoradas para inclu\u00edrem indicadores de bem-estar e sustentabilidade, abrangendo, por exemplo, desigualdade, infraestrutura, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e meio ambiente. O mesmo precisa de ser feito ao n\u00edvel das regi\u00f5es, cidades e comunidades, bem como no setor privado. Regras cont\u00e1beis modificadas podem fazer com que as empresas internalizem os custos e se responsabilizem pelo impacto social e ambiental dos seus processos de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\r\n<p>Ao n\u00edvel da Uni\u00e3o Europeia, o Semestre Europeu que obriga os Estados-membros a aplicar crit\u00e9rios de disciplina or\u00e7amental vinculados ao crescimento deve ser reformado. A ideia promovida pelo Pacto de Estabilidade e Crescimento, segundo a qual disciplina e crescimento s\u00e3o os dois pilares do projeto europeu, \u00e9 perigosa. Se a coopera\u00e7\u00e3o entre estados e bem-estar fosse medida em vez da disciplina e do crescimento, seria um progresso real ao n\u00edvel europeu. Para que isso aconte\u00e7a, precisamos garantir que o Acordo Verde tenha como objetivo o bem-estar e n\u00e3o, como a Comiss\u00e3o Europeia disse inicialmente, o crescimento econ\u00f3mico.<\/p>\r\n<p><strong>No que respeita a Portugal, como v\u00ea a sociedade portuguesa? Quais as nossas maiores dificuldades e virtudes para enfrentar os novos desafios do s\u00e9culo XXI?<\/strong><\/p>\r\n<p>N\u00e3o sou especialista o suficiente, mas diria que a vossa maior for\u00e7a, por causa da hist\u00f3ria, \u00e9 a coes\u00e3o social e a maior amea\u00e7a que voc\u00eas est\u00e3o a enfrentar, por causa da geografia, \u00e9 a mudan\u00e7a clim\u00e1tica.<\/p>\r\n<p><strong>Por fim, est\u00e1 confiante na mudan\u00e7a do mundo?<\/strong><\/p>\r\n<p>\u00c9 claro que vai mudar, mas isso n\u00e3o me deixa necessariamente confiante! As transi\u00e7\u00f5es acontecem \u2013 ou n\u00e3o acontecem \u2013 devido a tr\u00eas fatores principais: ideias, interesses e institui\u00e7\u00f5es. Quando se trata de ideias, h\u00e1 uma quantidade colossal de treino intelectual a ser feito. Desde 1934, a ideia do PIB e do seu crescimento como uma esp\u00e9cie de b\u00fassola est\u00e1 profundamente enraizada na nossa imagina\u00e7\u00e3o por meio das escolas, universidades e outras institui\u00e7\u00f5es. Essa doutrina \u00e9 endossada pela grande maioria dos economistas e penetrou na sociedade em geral. Mas o PIB \u00e9 pouco compreendido e raramente questionado. Tome o exemplo do presidente Macron, educado nas melhores escolas da Fran\u00e7a. Para ele, a economia \u00e9 startups, finan\u00e7as e taxa de crescimento do PIB. Ele mal entende como a economia francesa realmente funciona. Mas quando falo com jovens ativistas clim\u00e1ticos e ambientais fico cheio de esperan\u00e7a!<\/p>\r\n<figure class=\"[ vertical-space align-center ] _ink-grid-negative article-embed article-image-embeded photo-swipe\" data-trackerlink=\"Article|Content|Widget_embed-image\"><\/figure>\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n<p>SAPO.\u00a0<b>\u00c9loi Laurent: \u201cA d\u00e9cada que se abre em 2020 \u00e9 realmente a do desafio ecol\u00f3gico\u201d<\/b>. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.sapo.pt\/noticias\/planeta\/artigos\/eloi-laurent-a-decada-que-se-abre-em-2020-e-realmente-a-do-desafio-ecologico. Acesso em: 8 jun. 2020.<\/p>\r\n<figure class=\"[ vertical-space align-center ] _ink-grid-negative article-embed article-image-embeded photo-swipe\" data-trackerlink=\"Article|Content|Widget_embed-image\"><\/figure>\r\n<p>\u00a0 \u00a0 SAPO.\u00a0<b>\u00c9loi Laurent: &#8220;A d\u00e9cada que se abre em 2020 \u00e9 realmente a do desafio ecol\u00f3gico&#8221;<\/b>. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.sapo.pt\/noticias\/planeta\/artigos\/eloi-laurent-a-decada-que-se-abre-em-2020-e-realmente-a-do-desafio-ecologico. Acesso em: 8 jun. 2020.<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O economista franc\u00eas acaba de lan\u00e7ar em Portugal o livro \u2018De Olhos Postos no Amanh\u00e3\u2019, onde defende o fim da obsess\u00e3o pelo crescimento econ\u00f3mico em troca do bem-estar e sa\u00fade das popula\u00e7\u00f5es. 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